O Parto de um Rio em Versos

 

Parto de rio

Verso nascente

Rima no cio

Fio de vertente

Fonte do tema

O rio gerado

Qual um poema

Verso rimado

As areias são papiros pr’algum louco

Que à corrente joga versos pouco a pouco

As águas curiosas querem lê-los

Decifrando suas rimas  com desvelo

Rimas pobres serão barro pros oleiros

Rimas ricas vão dourar algum pesqueiro

Rimas preciosas, recolhidas em bateias

Outras rimas serão canto de sereias

Parto de rio

Verso nascente

Rima no cio

Fio de vertente

Fonte do tema

O rio gerado

Qual um poema

Verso rimado

A correnteza disparou em desvario

Quando o parir do rio em versos terminou

A poesia preparou o leito do rio

E o poeta louco nele descansou.Imagem

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O fim do mundo, o nada e a canção que eu não fiz para Matilda

O fim do mundo deve ser o nada mais o silêncio mais a ausência. E nenhuma canção.

Quando Matilda foi embora o nada era tão intenso que eu o poderia tocar e o silêncio se fez tão profundo que se tornou até possível lhe ouvir. A ausência era tão densa que eu podia velá-la como quem vela um defunto na esperança de não precisar enterrá-lo nunca.

Era o fim do meu mundo.

Quando Matilda se foi dizem que eu perdi os sentidos. Porém, eu sentia que o meu sangue acelerava pelas veias querendo ser poesia, em louca cavalgada.

De Matilda? Lembro que sua presença era rósea e lisa, delicada qual uma pétala; sua ausência, purpúrea, áspera e espinhosa como o caule da roseira. Sua falta me umedecia os olhos e me secava a boca.

Matilda partiu em um navio. “La nave va “… Um cais, o caos, o nada.

E aqui estou em meio ao nada. Sem ter do que me afastar, despido do personagem com que buscava lhe agradar. Ouvindo suas canções sem ela a me explicar. Vou cantar como cantar, vou sentir o que sentir.

O nada que a ausência de Matilda trouxe não era o nada do Sartre, e sim o nada de mim. Um nada claro e simples entre o meio e o fim de uma extensa madrugada. Pensei só em você no nada de onde vim. Olhar o nada me sossegou a alma. Cegou-me a calma com que o nada chega ao fim.

Não restou sequer uma estrela azul nem o farfalhar das asas de uma fada, nem Excalibur cortava o ar, nem qualquer espada; nem Pégasus nem unicórnios. Nada de centauros, ciclopes, faunos, ninfas ou sereias. Nada de sonhos.

Nada.

Do nada vinha o seu cheiro, vinha o seu nome. O nada era toda a sua ausência na primeira madrugada, muito antes da partida e tanto depois da chegada. Aliás, todo o tempo era uma madrugada.

Foi então que eu perdi o entono e junto dele se foi o meu sono com tudo que me causara. Peguei o violão… Meus dedos, pela falta de sua pele, no braço do corpo perfeito buscaram dissonâncias, invadiram escalas, trastejaram cordas, inventaram acordes, mas eu, de concreto, nada… Nada fiz… Nem mesmo esta canção…

EU NÃO FIZ ESTA CANÇÃO

Quando Matilda foi embora

Meu olhar não se molhou

Eu não senti desconforto

Não me senti qual um morto

Que olha tudo e não vê

Quando Matilda partiu

Eu não toquei suas fotos

Eu não cheirei os lençóis

Eu não perdi minha voz

Eu não beijei seu batom

Quando Matilda se foi

Não me joguei aos seus pés

Eu não gemi abafado

Nem sussurrei ajoelhado

Que não era hora de ir

Quando Matilda sumiu

Eu não me desesperei

E não me lancei ao bar

Nem sequei o Old Parr

Eu não cantei Please Don’t Go

Quando Matilda se mandou

Eu não sujei o seu nome

Não maldisse o nosso lar

Os pratos  não fui quebrar

Nem as paredes soquei

Quando Matilda disse adeus

Não esbocei reação

Eu não, nem ai, nem aí

Não escrevi tal pieguice

Eu não fiz esta canção

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A Poesia e a Musa

A Poesia é uma corrente. Um arrastão que vem em ondas como amar. Como o mar. Bebo o mar. Maresia. A poesia corrói a corrente que o poeta quer manter.

A Poesia é uma corrente e é com um grilhão que ela aprisiona o poeta. E a coisa é louca, pois ela aprisiona o Pessoa(a pessoa) por dentro, estando lá no seu peito. Pulsando enquanto ainda não existe. A Poesia não pensa, logo, o poeta não resiste.

A Poesia é uma corrente e os temas são recorrentes… pelo menos os meus:  o fingimento, a princesa, a fada, a bailarina, a partida, a chegada, a dor, o amor, o bar, o mar, a ervilha (maravilha), a filha, a adorada, a música, a musa. Essa última é fugidia e recorrente e dúbia… Igual a tudo na poesia (penso eu). A Musa é a inspiradora da Poesia.

A Poesia é uma corrente que a Musa liberta em correnteza. A Musa vem e volta conforme a corrente e corre rente a gente que a sente ali, ao alcance dos dedos. E, se ela se deixa ver e tocar, a poesia sai dos dedos para o lápis e deste para o papel (se clássica) ou dos dedos para o teclado e deste para a tela (se moderna) e desta para o papel.

A Poesia é corrente que a Musa desacorrenta e liberta em papel passado. A musa é eterna embora inconstante (por ser recorrente). É do poeta o motivo e se esconde, por vezes, sem dar nenhum motivo. É independente e ai dos que dela dependem. Ais. Suspiram e gemem e pedem por sua volta. E se ela voltar?

SE VOCÊ VOLTAR

 

Vou desfazer sua mala

Arrumarei a cama

Se você voltar

E passar a noite

 

Vou manter a calma

Serei Dalai Lama

Se você voltar

Sem dizer o prazo

 

Vou nutrir a chama

Não vou criar drama

Se você voltar

Meio enigmática

 

Vou publicar proclamas

Tecer pentagramas

Se você voltar

E for para sempre

 

Vou lavar a alma

Vou brincar na lama

Se você voltar

Pra ser minha Dama

 

 

 

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Pra não dizer que não falei de política ou o Caos a partir de Era uma vez um cavalo que falava inglês

Política, heróis e o caos pela morte do Petit

Pra não dizer que não falei de política, oficializo que meu herói não veste toga. Havia um personagem que eu gostava, que usava tanga (Tarzan). Meu (ou Véi),na boa, HERÓI, mesmo, só o cavalo do Fantasma. Capeto era o lobo? Fantasma foi meu personagem preferido depois do Ken Parker. Colecionava O Pato Donald e, numa chuvarada em Cacequi, perdi essa coleção e mais a coleção de Tex do Jorlei. Viu só o que dá mexer em baús antigos? Vem a infância e na infância ainda se tem ilusões. Nela e na ilusão dela, os meninos ainda têm seus heróis, além do Pai; as meninas acreditam nos contos de fadas e, consequentemente nos príncipes encantados; as misses não são infantes, mas acreditam no Pequeno Príncipe, invertendo os papéis. A criança é o próprio príncipe e não tem final feliz. Preciso escrever algo… meu blog tá parado que nem o trem parado da RFFSA, num contratempo contrabandeado, desempregando chibeiros e ferroviários em privatarias. Ah, olha a política de novo. Voltou a minha verborragia, saiu das minhas veias corpo fora. A Musa voltou! Confesso que escrever é preciso. Há tempos não navego. Sinto-me não Pessoa. Estou, como disse um amigo escritor, me sentindo sincopado, confuso, reticente… Aliás sou assim, um caos a beira de um cais onde caio. Problemas de fuso horário e vem aí o horário de verão e deverão, todos, atrasarem seus relógios, como se adiantasse. Ah, a Musa voltou, mas voltou confusa, rimando e me fazendo voltar no tempo. Quando ainda havia heróis, sem overdose, e o cavalo do Fantasma falava inglês com Chico Buarque. Acho que o Saint-Exupery não devia ter matado o principezinho. Pela volta dos contos de fada… Era outra era, era uma vez.

Era uma vez

Conto uma vez

A nossa estória

Conto de fadas

Canto um fado

E fantasio

E me extasio

Um, dois e três…

Era uma vez

Sem outra vez

É só agora

E dou o fora

Juro por tudo

Palavra de Rei

Não volto atrás

Não conto em ser freguês

Era uma vez

Só uma vez

E já me basta

E a moça casta

Vira moça fada

Sem sapatinho

Sem carruagem

Sem puro sangue inglês

Era uma, apenas uma, só uma , suma vez

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Das Crises, Musas e Esfinges e da Droga de um Poema Pirado

Conheci a Musa na Grécia. A Musa é grega. Ela me visitaria eventualmente. Esperei e ela não veio. Culpa da crise na economia grega, talvez. Viajar do Olimpo até a minha cabeça não recebeu o  subsídio e nem a aprovação dos Deuses(ciumentos). E nem… Enem… Aprovação… Fugi do tema nesta redação.

Ah, como é mais fácil criar com a Musa. A musa perfeita te causa poemas cem por cento inspiração… Oh, Musa, se te demoras, o medo vem e me devora. Este medo de fingir o que é verdadeiramente sentido, mentido. E finge-se tão completamente. E finge-se e então completa a mente. E mente-se e lança-se a semente. A semente da dúvida sobre a possibilidade da criação, o enigma.

Não vindo a Musa, surge a Esfinge, que também é grega, e, tal qual o medo, também devora. E um poeta suspira, transpira e, só, um poeta pira. E arde na pira da mentira. E a pira é grega. E o poeta fica falando grego. A crise é grega (questão de cifra); Grega é a Esfinge (questão decifra?);  e então finja-se um poema cem por cento transpirado. De um poeta em crise, sem Musa, sem inspiração. A droga de um poema a devorar um poeta pirado… que finge…

ESFINGE

 

O que me deste pra beber em tua boca?

Chá-de-coca, absinto, saliva louca?

O que me deste pra sorver em tua pele?

Ácido com L? Por favor, peço, revele…

O que teus dentes secretaram em minha veia?

Que teia é essa que me enreda como peia?

Que nó é esse que me trava a garganta?

E este perfume que me lança assim ao pó?

O que será este teu cheiro que alucina?

Será que rima o que me lesa e me encanta?

Que plantas ativas pra que eu exponha a dor?

Por que tuas unhas irradiam este torpor?

Que há em teu ventre que me faz queimar em brasas?

E em teu olhar que me faz voar sem asas?

Que droga, amor, me impele a te adorar?

Diga-me agora: o que há em ti que me devora?

(Enquanto eu não souber te decifrar…)

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Era uma vez um poème misèrable

Once upon a time e lá estava eu, doido, doído, pensando ser poliglota. Ser troglodita era o que era. Pero, inglês, porém, era só para iniciar contos de fadas e terminar o meu nome. Português me lembrava fado.  Amava atrizes francesas e então resolvi me expor por elas: Deneuve, Bardot, Binoche, Moreau, Adjani.  Était une fois La femme fatale em matinée do Cine Rissi, em Cacequi. Mais tarde um pouco, por coincidência, a prima Lucia preencheu minha inscrição no vestibular com a opção pelo francês como língua estrangeira. Nunca havia tido uma aula da língua de Victor Hugo. Estava fadado. Cismei de escrever um poema em uma linguagem franco-portuguesa.  Claro que só poderia ser recheado de lugares comuns, mas imaginava o charme e a sedução daquelas atrizes e de seus biquinhos (entendam como quiserem) a cantarem, a declamarem minha pequena obra. E, por cenário para mon petit poème, a cidade que me adotou após aquele vestibular, supracitado. Para completar, uma homenagem à Joana Francesa do Chico (Jeanne Moreau, chic), o Buarque:

Maria Francesa

“Marie, Marie, Marie“

Tu rias pra mim

“Ça va, ma cherie”?

Um dedo ou mão de prosa

Roubei uma Rosa

Cantei “Pout-pourries”

 

Era uma Deneuve

Uma “ Belle de Jour“

“Demoiselle en bleu“

Um anjo de azul

Jurei meu amor

”Dieu Merci Beau-coup”

 

Um brinde no Cristal

Assim ”en passant”

Na Copacabana

Um ”Crepe”, um ”croissant”

Um amor uma cabana

Uma febre terçã

 

Mas te foste de mim

Sem “Au revoir”

Ao revoar das aves

Que sobrevoam árvores

Na Saldanha Marinho

Ao entardecer

 

“Mise-en-scène”

Acena em meio a luzes

Sem Câmera, sem Ação

Em frente ao Cine Glória

Teve nossa história

Final infeliz

 

Ainda pensei assim

“C’est la vie”

E a vi rumo à estação

Vestindo verde organdi

E era mesmo a vida

Que eu via partir

 

Qual “femme fatale”

De um filme “noir”

Desfez-se no ar

E eu passei do Ponto

Eu bebi o bar

Eu beberia o mar

“Marie, Marie, Marie…”

 

 

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De flertes, neologismos e poesia ao soneto mal-acabado…

 

     Flerto com neologismos. Então inventei o verbo amarejar, composto por amar e marejar. Amar, verbo difícil de explicar (aqui no sentido de paixão); marejar, verter em lágrimas. Não sei se foi o amar que engoliu o mar de marejar ou a “fagia” deu-se ao contrário. Porém, a meu ver, neologismo feito.  Amarejar, para mim, passou a ser: verter-se em lágrimas de amor. Flerte morto, flerte posto.

     Flerto com a poesia. E sinto inveja de quem faz versos, dos livres aos clássicos. Cá estou com inveja de quem faz metrificação e forma perfeita. Inveja de Camões, de Neruda, de Condor Ribeiro.  Entendendo que não basta flertar com a poesia. É preciso tocá-la, acariciá-la, deixá-la fluir, como fluem as lágrimas do amor, da paixão. É preciso bem mais do que um neologismo. É preciso navegar… Eu preciso amarejar…

Ah, acho que flertei com um soneto…  !

 

Amarejar

A cada rever-te morria

O que era em mim tua saudade

Mas era a morte também de minha alegria

Afogada por minha ansiedade

 

Então jurei procurar-te não mais

Pois tal angústia era insuportável

Era meu peito o pequeno cais

Era a paixão o mar inavegável

 

Abalroava o cais branquejando em fúria

A tormentosa escuma da paixão espúria

Era aos poucos meu juramento imerso

 

E como só flutuam juntas saudade e alegria

Se embarcadas forem em nau de poesia

Atirei ao mar meu primeiro verso

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