A Superfície do Poema, a cultura enciclopédica e uma “certa loucura”.

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Minha cultura é enciclopédica. Muitas informações generalizadas, genéricas e generosas e um raso, ralo e róseo conhecimento de cada uma delas. Enfim a cultura enciclopédica é o saber suficiente para puxar assunto e não ficar de fora de rodas de conversa. Nada de se aprofundar no tema. Tudo superfície de um poema. A cultura enciclopédica serve perfeitamente para um poema superficial.

Viver na superfície do poema é um não mergulhar, é um boiar na beira-mar onde ainda dá pé. É um não arriscar-se aos enleios da profundidade. Conhecer do iceberg apenas o que está sobre o nível do mar. É ler o segundo caderno, deliciar-se com as resenhas e não ler os livros. A superfície do poema é a quase poesia.

Uma quase poesia, o suficiente para saber rimar ainda que tecnicamente; É ter uma ideia, uma vaga referência. Minha poesia é vaga, é voga… Vai e vem… Mar ia, mar vinha… Maria, vinha, vinho amargo, uvas verdes… e fica nisso. Nada de chegar ao pré-sal do poema. A quase poesia é a fuga.

Fugir astutamente, raposo, do profundo. Fugir da beleza do mar profundo, do submerso enorme do iceberg… Fugir da dor no peito, da apneia. Mergulhar em uma bacia. Nunca se afogar.  Tergiversar. Lá “teje” a versar.  Contradizer-se ao ser raso na profundidade da poesia.

Manter-se na superfície do poema é um não “orgasmaravilhar-se”… Um não ir ao clímax… Um ser e manter-se nas preliminares. Um eliminar prematuro. É indefinir-se com a prosa. De uma rosa, deliciar-se com as pétalas, nada de talos, folhas e espinhos. É ir ao acaso à paixão, ao ocaso do amor, um pequeno caso com a dor, um flerte, um filete, uma gillete encostada ao pulso sem varar a pele, sem sangrar. É. Sem o ser.

Ser ou não ser poeta? Concretamente, se o sou, sou abstrato.

Loucos sem Cura

Ela é meu céu

Eu seu inferno astral

Ela tem forma

Eu formado no irreal

Ela é coragem

Eu nem imagem

Ela é concreta

Eu nem poeta

Sou abstrato

Por vezes a destrato

Ela tem onde

Eu nem porquê

Ela é de cara

E chega tarde

Eu Viajante

Cedo covarde

Mas nossas noites são boas

Rimos à toa, gozamos juntos

Nossos assuntos, nossas loucuras

Vezes tão puras, vezes tão sujas

Vozes tão roucas, sussurros loucos

Loucos sem cura

Ela é tão livre

Eu tão interno

Ela é moderna

Eu vou de terno

Ela me avassala

Eu a cativo

Num quarto/sala

Dois mortos-vivos

Mas nossas noites são boas

Rimos à toa, gozamos juntos

Nossos assuntos, certas loucuras

Vezes tão puras, vezes tão sujas

Vozes tão roucas, murmúrios loucos

Loucos sem cura

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12 respostas a A Superfície do Poema, a cultura enciclopédica e uma “certa loucura”.

  1. Parabéns, Raul !! Adorei 😉

  2. Tânia Teresinha Lopes diz:

    Bah! Bom demais Raul! abrs

  3. Dimi diz:

    Sempre poeta…valeu Raul!

  4. Amanda Bellino diz:

    Hi querido Raul! Beautifulinda!!! ✿ Um beijo meu amigo!

  5. Márcio de Souza Bernardes diz:

    Grande, Raul!! Muito bom… gostei das vagas e do Mar…. heheheh Mar ia (certa vez escrevi algo assim:
    UMA HISTÓRIA MARIA

    Ah, tão doce,
    Maria,
    O mar ia
    Lambendo a terra,
    Sussurrando canções
    De saudades
    Maria,
    E mil abismos se abriam
    Mil tormentas passavam
    (mas a gente esperava
    cada uma passar)…
    E era dilúvio, Maria
    E delírio
    De lírios no mar

    Maria…
    E o mar ia
    Tão doce

    E eu numa arca
    Me deixado levar

    Mas só na superfície. Sem mergulhos… só boiando! Abraços, Raul

  6. Renato Mirailh diz:

    muito bom…abraços

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