Quem Lê Minsk não Lê Curaçao

Não sou um poeta fingido; Sou apenas um ajuntador de palavras, um colecionador de vocábulos, um catador de fonemas, um achador de sentidos; E dou-lhes insensatos sentidos outros. E cato e acho e coleciono e ajunto a dor (que deveras sinto) e com ela brinco. Quem dera viver entre aliterações e polissemias, lavrar a palavra, semear os fonemas, colher os sentidos. Vocabular a aula e encabular o professor de literatura que me atura, literalmente e se mente semeia e, enfim, é assim com trocadilhos e rimas pobres para mim.

Tenho amigos poetas de verdade. Palavra. Ainda se reúnem, amigos que são, para falar de literatura, entre outros assuntos, entre bebidas e aperitivos (bota aí um tira-gostos). Amigos que têm um pouco de médicos e de loucos. Foram capazes de me receitar Leminski (-lê uma vez ao dia ou sempre que sentir dor). E me viciei;

Leminski na Bielorrússia é quase capital( captou)?

Ah, ajuntei umas palavras que se não vingarem sozinhas terão a luxuosa companhia de uma fina melodia.

IMÃ (Raul Maxwell//Marcelo Schmidt)

 

IMÃ

O poema que me veio

Viaja pelo uno verso

Inverso amigo do rei

Verso uno de preguiça

Rima rico

Rima pobre

Rima lindo

Rima feio

Rima da minha laia

Vou-me embora

Vou-me embora pro Himalaia

Que amá-la já está no meio

Vou-me embora

Vou-me embora pro Himalaia

Que a mala já está no meio

 

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Samba pro Pina

Samba pro Pina (Letra de Raul Maxwell e Música de Renato Mirailh) nasceu como “pra quem opina no samba dos outros”, uma brincadeira trocadilhesca cacofônica em que qualquer semelhança com fatos reais terá sido coincidência (ou não). Vá saber… Enfim pra gente ir se divertindo sem perder o pique de compor. Não vai tocar nas rádios porque jabá também é pro…Pina. Clique Para ouvir o samba pro Pina

SAMBA PRO PINA

(Pra quem opina no samba dos outros)

A casa de alvenaria

Que eu fiz pra Maria

Eu devo pro Pina

O bueiro sobre a sarjeta

O cano da valeta

Eu devo pro Pina

Pro Pina a casa da praia

O apê da Mara Cutaia (tá certo)

O esgoto a céu aberto

Eu devo pro Pina

Propina que me financia

O calçamento quem diria

Defronte à minha casa (a fonte que vaza)

Eu devo propina

Pro Pina eu me finjo de cego

Pro Pina eu devo e não nego

O Pina tá sempre presente

Até o presente da mina eu devo pro Pina

É ele o meu empreiteiro

É dono do meu dinheiro

O Pina é pior que agiota

Ele não me dá nota

Mas devo pro Pina

Tudo que eu tenho , que eu faço ou que ganho eu devo pro Pina

Até o meu novo samba agora é Pro Pina

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Versos de Cantar Triste

Ouça Versos de Cantar Triste

 

Foi por uma frase de meu cunhado, Cleto Urrutia, que nasceu esse poema. Eu sempre gostei de músicas tristes (baladas, canções, toadas) e com temas até mesmo depressivos, por vezes (“Oh, pedaço de mim… Oh, metade arrancada de mim-Chico Buarque). Ele tinha preferência por músicas alegres, gaitaços.  A cada vez que me via colocar no toca-fitas (sim, aiko atpr 405, meu primeiro salário – um aiko e um terreno) as minhas canções preferidas ele costumava falar: “… de músicas triste, o diabo anda perto!” – e saía de perto mesmo. Aquela frase dele, embora não mudasse o meu gosto musical, foi martelando a minha mente, me dizendo que aquilo poderia ser o nascedouro de alguns versos. E numa tarde triste de um domingo triste qualquer, em algum outono triste e  chuvoso, eu tive a oportunidade de, na árvore de tristezas que é o mundo, apanhar a letra abaixo: Versos de Cantar triste.

O poema virou uma canção, milongueada, triste como não poderia deixar de ser, através do violão de Renato Mirailh.

 

 

Versos de cantar triste

 

Solito no rancho

Cevei o meu mate

Sorvendo o amargo

Da tua saudade

Bebi da cachaça

Ardente água pura

Tal qual tua imagem

Que hoje é tortura

(que hoje é tortura)

 

Tirei do meu pinho

Plangentes gemidos

Enquanto compunha

Uns versos sentidos

As rimas trazendo

O que disse Tio Cleto:

“… dos cantores tristes

O Diabo anda perto.”

 

Pois venha o diacho

E ouça o meu lamento

Que minha milonga

É só sentimento

Que se aprochegue

Desculpe o desaforo

Mas careço de um ombro

Pra soltar meu choro

(Mas careço de um ombro

Pra soltar meu choro)

 

 

 

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A Carta de Matilda ou o que sei do amor

Hoje recebi uma carta de Matilda. Nada mais atemporal do que uma carta em tempos de “whatsapps”, “skypes” e similares, os genéricos modos de comunicar-se eletronicamente. Não sei se ela me escreveu naqueles dias… Dias aqueles em que o “whatsapp” fora suspenso. Não sei se escrevera inspirada em Temer… Ao menos não me chamou de Presidente, embora tenha se referido ao meu partido. Partido coração. Re-ferido coração, agora pela carta trazida e entregue por um carteiro risonho. Pensei em rasgar e queimar a carta, mas meu peito parecia rasgar e queimar quando a apertei entre os dedos. Cheirei-a e nada do Chanel. Nenhuma gota daquele perfume que usava para dormir, verão ou inverno. Cadê o charme das velhas cartas de amor? De amor? Senti que ainda havia em meu coração uma ponta de esperança. Desapontei-me ao abrir a carta. Havia nela mais verdades tristonhas do que mentiras risonhas. Uma acusação: “poetas nada sabem de amor” e “poetas são egoístas e egocêntricos”. Condenava-me ela. Apelei. Saudade de apelar. A Matilda. A malvada Matilda. Como ela poderia ter escrito tal libelo? É claro que nunca a deixaria sem resposta. Não sou homem de não encerrar as discussões. Saiba, Matilda, que a última palavra é a minha; as demais são chavões recolhidos por aí; frases feitas sem nenhum valor poético, político ou postal. Se quiseres minha resposta não a terás em mal traçadas linhas, em minha caligrafia horrível (ainda tento escrever com a velha caneta tinteiro – presente teu). Lê em meu blog, te mando o link. E saiba que sei do amor.

EU SEI DO AMOR

Não, eu não aceito que você,

Ou outro alguém, algum qualquer venha supor

Muito menos admito que espalhe

Pros meus amigos que eu não sei o que é o amor

Amor é fogo que arde sem se ver

Luiz de Camões me ajudou a entender

Bem mais que hábito, amor é eterno vício

Eu aprendi lendo sonetos de Vinicius

É no amor que a tenho bem mais perto

Descobri isso ouvindo todas do Roberto

O amor é vinho e eu conheço cada safra

Conheço o amor em cada agudo do Biafra

Digo eu te amo , te quiero, aishiteru

Grito jê t’aime, te voglio bene, I Love you

Sei da tragédia do amor levando à morte

Romeu, Julieta, Tristão, Isolda, amor sem sorte

Eu sei do amor, pois já li tudo a seu respeito

Já ouvi tudo que do amor vieram cantar

Eu sei do amor por isso não lhe dou esse direito

De que não sei o que se passa no meu peito

Mas reconheço e não é fácil confessar

Eu sei do amor, só, talvez, não saiba amar.

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O Varal

176717_158998897486979_1882430_oQual um poema cru
As roupas ao vento
Sugeriam o corpo nu

E o varal estendido
Tolhia a liberdade
No movimento contido

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Cultivar Poemas ou a vinheta embaçada

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Eu curto poemas curtos.

Os poemas curtos têm a vantagem de, caso eu não os entenda, não me cansarem; Caso eu os entenda, são mais fáceis de serem decorados e declamados; Caso eu quase os entenda, podem ser lidos várias vezes (em silêncio ou não) sem perder muito tempo, para enfim os entender.

Já que vivemos nesses tempos em que não temos tempo para quase nada – que se dirá de tempo para poesia – tentemos, pois, com poemas curtos.

E, afinal, mesmo que não nos digam nada, poemas curtos têm mais chances de serem lidos. E é preciso que o sejam.

Eu cultuo poemas cultos. Eu cultivo poemas

Maria

Maria, mar ia

Mar vinha

Mar, vinho

Enjôo

Em pleno vôo

Por sobre mar!

Calafrio

Temo o que me causa frio, o que me cala…

Frio, temo o calafrio que me arrepia o osso…

Eu temo o poço e o frio do calabouço…

E calo.

Poesia frágil

Brisa tépida

Carne trêmula

Cara pálida

Forma esquálida

Busca inválida

Verso fácil

Poesia frágil.

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A Superfície do Poema, a cultura enciclopédica e uma “certa loucura”.

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Minha cultura é enciclopédica. Muitas informações generalizadas, genéricas e generosas e um raso, ralo e róseo conhecimento de cada uma delas. Enfim a cultura enciclopédica é o saber suficiente para puxar assunto e não ficar de fora de rodas de conversa. Nada de se aprofundar no tema. Tudo superfície de um poema. A cultura enciclopédica serve perfeitamente para um poema superficial.

Viver na superfície do poema é um não mergulhar, é um boiar na beira-mar onde ainda dá pé. É um não arriscar-se aos enleios da profundidade. Conhecer do iceberg apenas o que está sobre o nível do mar. É ler o segundo caderno, deliciar-se com as resenhas e não ler os livros. A superfície do poema é a quase poesia.

Uma quase poesia, o suficiente para saber rimar ainda que tecnicamente; É ter uma ideia, uma vaga referência. Minha poesia é vaga, é voga… Vai e vem… Mar ia, mar vinha… Maria, vinha, vinho amargo, uvas verdes… e fica nisso. Nada de chegar ao pré-sal do poema. A quase poesia é a fuga.

Fugir astutamente, raposo, do profundo. Fugir da beleza do mar profundo, do submerso enorme do iceberg… Fugir da dor no peito, da apneia. Mergulhar em uma bacia. Nunca se afogar.  Tergiversar. Lá “teje” a versar.  Contradizer-se ao ser raso na profundidade da poesia.

Manter-se na superfície do poema é um não “orgasmaravilhar-se”… Um não ir ao clímax… Um ser e manter-se nas preliminares. Um eliminar prematuro. É indefinir-se com a prosa. De uma rosa, deliciar-se com as pétalas, nada de talos, folhas e espinhos. É ir ao acaso à paixão, ao ocaso do amor, um pequeno caso com a dor, um flerte, um filete, uma gillete encostada ao pulso sem varar a pele, sem sangrar. É. Sem o ser.

Ser ou não ser poeta? Concretamente, se o sou, sou abstrato.

Loucos sem Cura

Ela é meu céu

Eu seu inferno astral

Ela tem forma

Eu formado no irreal

Ela é coragem

Eu nem imagem

Ela é concreta

Eu nem poeta

Sou abstrato

Por vezes a destrato

Ela tem onde

Eu nem porquê

Ela é de cara

E chega tarde

Eu Viajante

Cedo covarde

Mas nossas noites são boas

Rimos à toa, gozamos juntos

Nossos assuntos, nossas loucuras

Vezes tão puras, vezes tão sujas

Vozes tão roucas, sussurros loucos

Loucos sem cura

Ela é tão livre

Eu tão interno

Ela é moderna

Eu vou de terno

Ela me avassala

Eu a cativo

Num quarto/sala

Dois mortos-vivos

Mas nossas noites são boas

Rimos à toa, gozamos juntos

Nossos assuntos, certas loucuras

Vezes tão puras, vezes tão sujas

Vozes tão roucas, murmúrios loucos

Loucos sem cura

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